Cidade do Rio é eleita pela Unesco como primeira Capital Mundial da Arquitetura

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Primeira cidade a ganhar da Unesco o título de patrimônio cultural mundial na categoria paisagem urbana em 2012, o Rio de Janeiro acaba de conquistar mais uma honraria na manhã desta sexta-feira. Em uma reunião em sua sede em Paris, a Unesco escolheu o Rio para ser o primeiro a ganhar o título de capital mundial da arquitetura. O anúncio foi feito por volta de 12h20 na França, 9h20 no horário de Brasília. (VEJA O ESPECIAL FOTOGRÁFICO: RIO, CAPITAL MUNDIAL DA ARQUITETURA) A decisão, avaliam especialistas em patrimônio histórico, arquitetos entre outros especialistas, é um reconhecimento a elementos que desde o século XVI ajudam a contar mais de 450 anos da história da cidade, sejam eles exemplares antigos, como o Mosteiro de São Bento e os Arcos da Lapa (construídos no período colonial), o Cristo Redentor (do início do século XX) ou o moderno Museu do Amanhã, âncora do projeto de revitalização da Zona Portuária.

A iniciativa faz parte de um acordo firmado entre a Unesco e a União Internacional dos Arquitetos (UIA) para dar o título às cidades que ficarem responsáveis pela organização do congresso mundial da entidade. A próxima edição do evento será no Rio, entre 19 e 26 de julho de 2020, e deverá reunir de 15 mil a 20 mil profissionais. O arquiteto Sérgio Magalhães, que preside a organização brasileira do evento, explicou, no entanto, que a expectativa inicial era que a Unesco só conferisse o título a partir da 28ª edição do congresso, marcada para 2023, em Copenhague (Dinamarca). Isso porque há apenas dois meses, em novembro de 2018, a Unesco e a UIA formalizaram a parceria. O título foi antecipado graças à organização do evento brasileiro que conseguiu reunir os documentos necessários a tempo.

— As razões pelas quais o Rio foi escolhido sede do Congresso Mundial de Arquitetura são praticamente as mesmas pelas quais a cidade ganhou esse título da Unesco. Em primeiro lugar, a força de uma cidade maravilhosa, reconhecida mundialmente. Em segundo lugar, o Rio tem um acervo arquitetônico que remete aos primeiros tempos do país. Poucas cidades no Brasil e no mundo têm essa diversidade. São, por exemplo, os melhores exemplares da arquitetura colonial e os melhores espaços do período imperial. Temos exemplares dos primeiros anos da República, do Modernismo e da art déco. Do período colonial, temos, por exemplo, a Igreja e o Mosteiro de São Bento e a Igreja da Glória. São elementos de primeiríssima linha — disse Sérgio Magalhães.

Ele acrescentou que, nos próximos meses, pretende usar a concessão do título pela Unesco para estimular a divulgação do congresso. Entre as ideias em gestação pelo organizador do evento, está de que a arquitetura seja tratada como um dos temas do réveillon de 2019/2020 na Praia de Copacabana. E que o assunto seja inserido de alguma forma por escolas de samba no carnaval do ano que vem:

— Ainda não temos um projeto fechado. Vamos começar a definir o que fazer a partir de fevereiro — acrescentou o cenógrafo Abel Gomes, que nos últimos anos foi responsável pela parte artística da festa da virada do ano, no Rio.

Simultaneamente ao congresso, será montada uma programação cultural, articulada pelo arquiteto Augusto Ivan, com exposições envolvendo centros culturais do Rio ao longo de 2020. Segundo ele, 48 instituições já manifestaram interesse em participar da agenda paralela. Boa parte da programação terá instituições da região central do Rio, como o Centro Cultural Banco do Brasil, o Arquivo Nacional e o Museu do Amanhã:

— A proposta não se limita a uma programação da parte histórica da cidade. Uma das ideias é criar oportunidade para que participantes do evento possam conhecer, por exemplo, o Parque Madureira, que se destaca como experiência de revitalização de uma área degradada na Zona Norte.

Para o arquiteto Washington Fajardo, apesar de todos os problemas que a cidade enfrenta hoje, o título mostra que o Rio tem um histórico de bons projetos que pensaram na ocupação da cidade tanto em relação às áreas públicas quanto às privadas. Ele destacou também que a concessão desse título também foi possível porque arquitetos e urbanistas, que independente de dificuldades, se esforçaram, ao longo dos anos, para tentar preservar o patrimônio urbanístico da cidade:

— Esse título é muito importante, mais um reconhecimento da inteligência brasileira ao longo da história do país e da cidade. Por isso, o Rio se dedica tanto a preservar, seja tombando imóveis ou instituindo Áreas de Preservação ao Patrimônio Cultural (Apacs). Em uma caminhada de 15 minutos no Centro do Rio, é possível ver arquitetura barroca, eclética e art déco da melhor qualidade. Não se encontra isso facilmente em outras cidades do mundo. Nunca fomos dogmáticos e sempre entendemos a arquitetura como cultura e liberdade de expressão — observou Fajardo.

Fajardo, no entanto, também tem algumas críticas ao momento atual da arquitetura do país e do Rio:

— Os aspectos mais sociais da arquitetura, como o bom planejamento urbano e a necessária política habitacional, estão esquecidos há muito tempo. Para os cariocas que vivem precariamente nas favelas ou em periferias, esse título se parece com uma fantasia em terra estrangeira. Precisamos de arquitetura para todos hoje. Como já fizemos no passado — afirmou.

Por sua vez, o presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-RJ), Pedro da Luz Moreira, disse esperar que a concessão do título seja um estímulo para o desenvolvimento de projetos para preservar o patrimônio urbanístico da cidade. Ele destaca que há exemplares importantes da arquitetura, menos divulgados, que nem sempre recebem a conservação necessária:

— Um dos exemplos é o bairro de Marechal Hermes. A estação de trens do bairro é um marco. O bairro também tem um teatro (Armando Gonzaga) projetado por Affonso Reidy (que também projetou o MAM e o Aterro do Flamengo). Cabe destacar que os problemas não se limitam à capital. A Fazenda Colonial Columbandê (São Gonçalo) tem enfrentado problemas, como saques. Mas, muitas vezes, esse patrimônio é invisível —disse Pedro da Luz.

O presidente da Associação Brasileira de Escritórios de Arquitetura (Asbea), Celso Rayol, diz que a concessão do título vem em um momento em que o mercado, depois de um cenário de crise econômica, busca uma retomada de projetos arquitetônicos que valorizem não apenas a funcionalidade, mas também a qualidade. Ele acredita que tanto o título quanto a realização do congresso servirão para estimular a própria população a valorizar seu patrimônio:

— Ainda existe um desconhecimento grande da população sobre o valor arquitetônico de muitas construções. Conheço casos de moradores de Copacabana que descaracterizaram imóveis por desconhecimento. Para a nova geração de jovens arquitetos em processo de formação, é um estímulo e uma inspiração — comentou Rayol.

A presidente em exercício do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU/RJ), Maria Isabel Tostes, destaca que o título é uma demonstração do reconhecimento de que arquitetura brasileira conseguiu desenvolver uma identidade própria:

— Os arquitetos brasileiros produziram ao longo dos anos projetos com conceitos nacionais. Não foram elementos desenvolvidos apenas por influência estrangeira. Temos no século XX vários projetos inovadores, como o Palácio Gustavo Capanema e o Parque do Flamengo — exemplificou Isabel Tostes.

A historiadora Kátia Bogéa, presidente do Instituto do Patrimônio Histórico Artístico e Nacional (Iphan), ressaltou que a cidade tem um patrimônio arquitetônico rico que reúne desde elementos da arquitetura portuguesa a ícones do modernismo. Ela lembrou que o Palácio Gustavo Capanema, no Centro do Rio, está sendo restaurado pela instituição e será a sede do Congresso Mundial de Arquitetos.

— Em 2012, o Rio também foi a primeira cidade do mundo a receber o título da Unesco de Patrimônio Mundial como Paisagem Cultural. Esses reconhecimentos reforçam o quão importante é o trabalho desenvolvido pelo Iphan tanto para preservar a história e memória do nosso país, quanto para a reflexão do futuro do patrimônio cultural — disse Kátia.

Prefeito Marcelo Crivella

O prefeito Marcelo Crivella comemorou a escolha. Ele acredita que o título pode inclusive ajudar o Rio a atrair investimentos para recuperar seu patrimônio histórico:

— A mão de Deus é a principal obra arquitetônica do Rio, que nos permitiu construir uma cidade entre a Baía de Guanabara e as montanhas. No entanto. esse título é um marco, uma consagração, ainda mais que estamos sendo a primeira metrópole do mundo a recebê-lo. Às vezes, quem mora aqui não tem olhos para observar todas as maravilhas. Mas quem está de fora fica maravilhado. Esse título pode ajudar na renovação de casarões, museus e parques. E em 2020, a cidade concentrará as atrações de arquitetos de todo o mundo— disse Crivella.

Governador Wilson Witzel

O governador Wilson Witzel disse que o título traz também um desafio para todas as autoridades independentemente da esfera de poder: transformar o Rio em uma cidade cada vez mais inclusiva para quem mora nela.

— Ser a primeira cidade reconhecida como Capital Mundial da Arquitetura é também mais uma oportunidade de divulgar o Rio no exterior, mostrando que este lugar reúne características únicas no mundo. O Rio é um casamento perfeito entre a natureza deslumbrante e a arquitetura de gênios modernistas como Oscar Niemeyer, Lucio Costa e Roberto Burle Marx. Além disso, a cidade preserva um patrimônio arquitetônico muito rico, capaz de reunir, muitas vezes, em um mesmo bairro, prédios do Brasil-Colônia, passando pelo período eclético, do início do século XX, até edifícios tecnológicos de hoje — afirmou Witzel.

Presidente da ABIH, Alfredo Lopes

O presidente da Associação Brasileira da Indústria Hoteleira, Alfredo Lopes (ABIH), aposta que a concessão do título dará mais visibilidade para a cidade internacionalmente. Ele ressalta que a cidade se projetou quando recebeu o título de Paisagem Natural e com a organização da Olimpíada em 2016. Alfredo espera também que a presença de arquitetos internacionais ajude a encontrar alternativas para recuperar áreas com potencial turístico que ainda estão degradadas ou cujos projetos de revitalização acabaram ficando no papel:

— O Rio de Janeiro tem uma arquitetura fantástica e merecia o reconhecimento pela sua criatividade. Esse reconhecimento é merecido tanto pelas construções mais antigas quanto pelos projetos mais modernos, como o Museu do Amanhã, projetado por Santiago Calatrava, na Zona Portuária. Espero que o congresso sirva para o Rio ter novas oportunidades de viabilizar projetos. É preciso retomar a revitalização da Zona Portuária, principalmente nas imediações do Cais do Valongo. E temos que voltar a discutir propostas para integrar equipamentos. Na época da Copa do Mundo, por exemplo, discutiu-se a construção de uma praça que integraria o Maracanã e a Quinta da Boa Vista que acabou não sendo construída — exemplificou Lopes.

Secretário estadual de Turismo, Otávio Leite

Já o secretário estadual de Turismo, Otávio Leite, disse que pretende utilizar a concessão do título pela Unesco para incentivar visitas temáticas à cidade.

— O título da Unesco é uma oportunidade para captar outras feiras e congressos que tenham a arquitetura como tema. Temos que aproveitar a visibilidade dada pelo título — defendeu Otávio.

 

Fonte: https://oglobo.globo.com/rio/cidade-do-rio-eleita-pela-unesco-como-primeira-capital-mundial-da-arquitetura-23379976

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