Jovens de favelas do Rio despontam em mercado de desenvolvimento de games

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Conquista é graças a cursos oferecidos nas Naves do Conhecimento

“Sou craque”. Autoconfiança, além de criatividade, é claro, não faltam para Luiz Felipe Ferreira Dias, de 10 anos, morador do Loteamento Nova Brasília, no Complexo do Alemão. Ele concluiu o curso de Introdução ao Desenvolvimento de Games oferecido pela Nave do Conhecimento, uma unidade da prefeitura que funciona em frente à Praça do Terço. Assunto do jogo eletrônico que o menino produziu com dois colegas como trabalho final, “a nave” virou um estiloso Pac-Man, que ataca fantasmas. E, na batalha, é possível conquistar valiosas medalhas de R$ 1 da Olimpíada.

Como Luiz Felipe, comunidades são celeiros de crianças e jovens que, com o apoio público e privado, pretendem ser mais do que jogadores. Eles querem aprender a usar recursos tecnológicos, e botar a imaginação para funcionar. Dessa busca, já nasceram games para PC e celular sobre temas diversos como política, passinho, aviões, robôs, heróis e luta.

Tão pequeno, Luiz Felipe sabe bem o que quer ser quando crescer: desenvolvedor de games. Para se aperfeiçoar, ele até embarcou em outro curso da Nave, o de programação de computador, que passou a ser oferecido em outubro. Orgulhoso, o professor Felipe Mello Fonseca garante que o garoto tem o fundamental para ir em frente: concentração e muitas ideias. E como.

— O próximo jogo que eu vou fazer será “A invasão dos Aliens”, para dois jogadores, que terão dez vidas cada um. Vai ter também um chefão com 50 vidas — informa o garoto com segurança.

‘O personagem principal é um deputado, o Roberval. Ainda estamos desenvolvendo a narrativa, mas a ideia é que o jogador, o deputado, tome decisões. Pode optar por trabalhar em prol do povo ou se tornar um corrupto’– CAIO PORTUGAL Jovem da Vila Aliança que criou game

Na quinta série do ensino fundamental, Luiz Felipe vive com a mãe, a avó e as duas irmãs — uma delas é gêmea dele. Há quatro anos, ele perdeu o pai, que foi assassinado a tiros, ao cobrar por equipamentos que alugava para festas. O tio Fábio Ferreira Dias, que mora próximo, confirma o quanto o garoto se interessa por tecnologia:

— Ele vive instalando e desinstalando computador. Isso é bom, porque ocupa a mente.

POLÍTICA COMO TEMA

A cerca de 30 quilômetros do Alemão, na Nave da Vila Aliança, em Bangu, Caio Portugal, de 28 anos, concluiu o curso em julho e logo iniciou a elaboração de um jogo de política, o primeiro que quer comercializar. Com dois amigos, está tocando o projeto do “Politicagem”, que espera lançar antes das eleições de 2018. Para isso, tem planos de formar uma empresa, a Delta Arcade, e de buscar financiamento para produzir o game.

— No “Politicagem, o personagem principal é um deputado, o Roberval. Ainda estamos desenvolvendo a narrativa, mas a ideia é que o jogador, o deputado, tome decisões. Ele lidará com outros políticos, empresários, sindicalistas. E fará escolhas. Pode optar por trabalhar em prol do povo ou se tornar um corrupto. O objetivo do jogo é ensinar política para as pessoas, torná-las mais conscientes — explica Caio.

O rapaz já participou e game jams (encontros de desenvolvedores), com protótipos de jogos, como um em que os personagens são gatos medievais, que usam armaduras e espadas. Tão entusiasmado com a profissão que está abraçando, ele quer, num futuro próximo, cursar faculdade de jogos digitais.

Alan, Caio e Cristóvão, da Nave da Vila Aliança, que estão produzindo “Politicagem” – Domingos Peixoto / Agência O Globo

Também aluno da Nave de Vila Aliança, Allan dos Santos, de 15 anos, é aficionado por computador e celular. Como não tem nem um nem outro, passa os dias entre a escola regular — está no 9º ano — e a Nave. Lá, desenvolveu games de plataforma (o jogador corre e pula entre plataformas e obstáculos, enfrentando inimigos e coletando bônus) e de luta. A mãe Ana Paula dos Santos queria o filho mais perto. Porém, está convencida que ter o adolescente por menos tempo em casa é melhor para ele:

— Sei que não está fazendo nada de errado. Está aprendendo.

Cristóvão Guilherme dos Santos, de 18 anos, fez Enem este ano para cursar engenharia da computação. Seu objetivo é se aperfeiçoar em programação de games — há ainda quem se especializa em áudio, desenho ou roteiro. Ele concluiu o curso de desenvolvimento de games na Nave de Vila Aliança, comunidade onde vive desde que nasceu, criando protótipos de games, como o Herói da Lenda:

– O jogo se passa numa floresta, na época medieval, em que um guerreiro busca derrotar um mago.

ÁRVORE DE PAC-MAN

A afinidade dos alunos da Nave de Vila Aliança com os games é tanta que se reflete na própria árvore de Natal que montaram, em que as bolas foram substituídas pelo Pac-Man e seus fantasminhas.

A partir de abril deste ano, as nove Naves do Conhecimento, localizadas nas zonas Oeste e Norte da cidade, passaram a oferecer o curso de Introdução ao Desenvolvimento de Games. Foram 289 pessoas, com 9 anos os mais, formadas. Outras 175 participaram das aulas mais avançadas de programação. Para 2018, Rocinha e Providência deverão ganhar Naves.

— O potencial de empregabilidade de quem trabalha com produção de games é alto — lembra o coordenador de conteúdo das Naves, Lorenzo Aldé.

Para estruturar e dar aulas nas primeiras turmas do curso de Introdução ao Desenvolvimento de Games foi contratado o coordenador da Associação dos Produtores de Games do Rio (Ring), Rafael Bastos, que criou o jogo digital brasileiro mais bem sucedido, “A Lenda do Herói” (nome que serviu de inspiração para Cristóvão criar um de seus protótipos).

— O curso mexeu com a realidade dos meninos — conta Rafael. — A carreira é acessível, e o Brasil tem cerca de 50 milhões de jogadores.

‘PASSINHO’: DEZ MIL DOWNLOADS

Foi pensando em mostrar que as favelas são muito mais do que violência e falta de infraestrutura que três jovens da Rocinha criaram em 2015 o “Passinho Dance”, versão para celular, que alcançou mais de dez mil downloads. No game, Ingrid dança sobre um tapete imaginário, que, na verdade, é a laje de uma casa. O cenário é composto por prédios na Rocinha.

— Para o ano que vem, vamos tentar conseguir uma sala com o Instituto Reação (funciona no Centro Esportivo na Rocinha) e fazer uma campanha de arrecadação dentro da Rocinha, para montar um curso para meninos da comunidade. Conheço muitos interessados— diz Júlia Ferreira de Oliveira, que tem 17 anos, como seus parceiros Francisco Ronaldo Rocha Cunha e Allison Cavalcante.

Francisco complementa:

— As favelas acabam sempre mostradas pelo que possuem de ruim. Mas elas possuem o seu lado positivo, que tem muita representatividade.

Os três passaram de jogadores a desenvolvedores há dois anos, quando o Tunnel Lab, um misto de ONG e empresa, lançou um projeto para ensinar crianças e jovens de comunidades a fazer games. Com o apoio do Tunnel Lab, a adolescente Júlia Ferreira criou o Favela Games e a fase inicial de seu primeiro jogo, o “Passinho Dance”. Logo ganhou um computador da Google numa competição. Francisco e Ronaldo se juntaram a ela, e o game deslanchou. Em disputas, o trio foi premiado com viagem para conhecer a sede da Google em São Paulo e curso de capacitação na Universidade Estácio de Sá.

O desenvolvimento de games é uma segunda atividade nas vidas de Júlia, Francisco e Allison. A jovem fez o Enem e espera cursar enfermagem ou jornalismo. Francisco começa pedagogia em 2018, enquanto Allison tem planos de entrar para a faculdade de arquitetura e urbanismo em 2019.

— Quero fazer projetos urbanísticos para melhorar as condições das favelas, em especial da que eu vivo — revela Allison.

O aporte financeiro do Ministério da Cultura permitiu que o Tunnel Lab prosseguisse com o curso de desenvolvimento de games em 2016, formando 130 meninos de 10 a 17 anos do Borel e de comunidades de São Gonçalo e Penha, que produziram 29 jogos eletrônicos. Sem recursos, este ano o projeto foi interrompido. A publicitária Júlia Moura, de 29 anos, fundadora do Tunnel Lab, lamenta:

— O desenvolvimento de games tem ação transformadora. Faz com que o jovem se enxergue como uma potência. Muitos vão para o tráfico não só por dinheiro, mas também por status. É preciso oferecer atividades que os meninos gostem, para que não sejam abduzidos pelo tráfico. E os meninos de comunidades gostam muito de games. Metade dos jogadores de games está nas favelas brasileiras.

Por Selma Schmidt

Fonte: https://oglobo.globo.com/rio/jovens-de-favelas-do-rio-despontam-em-mercado-de-desenvolvimento-de-games

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